Cientista fala sobre saúde da mulher, hormônios e não-menstruação

Agência Estado

Cientista fala sobre saúde da mulher, hormônios e não-menstruação Por Ciça Vallerio São Paulo, 15 (AE) – Dez anos depois de lançar “Menstruação – A Sangria Inútil”, o médico e cientista Elsimar Coutinho, considerado um dos expoentes da Endocrinologia, ainda se depara com ferozes opositores. Apesar de alguns colegas torcerem o nariz para a sua teoria, na qual defende a supressão da menstruação, a fim de evitar e curar moléstias femininas relacionadas ao sangramento mensal, Coutinho se tornou referência quando o tema é mulher e hormônios.

Bastou esse mesmo livro, que já está na sétima edição no Brasil, ser publicado anos depois pela Oxford University Press – uma das mais importantes editoras da área médica no mundo -, para que ele colhesse definitivamente os louros da vitória. “Minha obra recebeu reviews (críticas) favoráveis de todas as revistas médicas, tais como as conceituadas ‘Lancet’ e o ‘Journal of the American Medical Association'”, orgulha-se Coutinho. “A revista ‘New Yorker’ descreveu-a como ‘brilhante’. Diante de meus opositores, costumo dizer que eles têm a mesma opinião da minha tia Adelaide, que é analfabeta. Exijo argumentos científicos. Hoje, com 40 anos de pesquisas, não existe ninguém que me derrube.” Em plena forma, aos 77 anos, o médico, que nasceu na Bahia, não pára de dar a cara para bater e acaba de lançar outro livro, “Vivendo sem Regras e sem TPM” (Editora Landscape). Agora Elsimar Coutinho reúne 90 depoimentos de pacientes que, por algum problema de saúde, lançaram mão de seu método para parar de menstruar.

Ainda se dá ao luxo de, em um capítulo à parte, explicar o passo-a-passo da aplicação de implantes subcutâneos, seu método preferido. Apaixonado por literatura, o ginecologista e professor da Universidade Federal da Bahia gosta de se dedicar à escrita. Em maio, lançou o livro “O Sexo do Ciúme” (Editora Landscape), com artigos produzidos nos últimos anos sobre sexualidade, além de reflexões de sua própria trajetória.

Em Salvador, ele comanda o CEPARH – Centro de Pesquisa e Assistência em Reprodução Humana, instituto filantrópico que atende gratuitamente cerca de 150 mulheres carentes por dia. Homens também passam pelo instituto, mas para fazer vasectomia. São realizadas cerca de dez intervenções por dia. Segundo Coutinho, a capital baiana é a que mais tem vasectomizados no Brasil. Junto de sua fiel escudeira, a enfermeira Cláudia Erdens, Elsimar Coutinho mantém o pé na estrada. Durante a semana, sempre frenética, ele atende nos consultórios de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte, além de Salvador, é claro. Foi à noite, em sua bela clínica em Moema, bairro nobre da capital paulista, que o médico concedeu esta entrevista. Em tempo: ele é casado pela segunda vez, tem um filho de 50 anos, três filhas de 46, 38 e 30 – duas delas não menstruam (por opção) e uma está grávida. O médico está cheio de netos – quatro homens e quatro mulheres. A mais velha, de 25 anos, também decidiu não menstruar mais.
– AGÊNCIA ESTADO – Segundo suas pesquisas, por que a menstruação adquiriu conotação positiva?
– ELSIMAR COUTINHO – Na Antiguidade, os médicos não sabiam o que provocava o sangramento mensal. Notavam que mulheres ficavam muito nervosas e, quando menstruavam, se acalmavam. Os filósofos gregos Hipócrates, conhecido como o Pai da Medicina, e Galeno, o Príncipe da Medicina, analisaram racionalmente esse fenômeno e concluíram que a menstruação fora gerada pela natureza para aliviar o nervosismo da mulher. E que, se sangrar periodicamente não fazia mal a elas, então deveria fazer bem. Inspirado na menstruação, Hipócrates passou a acreditar na sangria terapêutica como recurso infalível para livrar doentes de seus males.

– AE – O que era a sangria terapêutica?


– COUTINHO
– Essa prática médica foi utilizada até o começo do século 20. Décadas atrás, só para se ter uma idéia, ainda existia diploma de sangrador na Universidade Federal da Bahia, onde me formei em Medicina. Esse tipo de especialista sabia cortar uma veia, deixar sangrar e, depois, ligar novamente. Esse método era usado para tirar o “veneno” de dentro da pessoa e, dessa forma, livrar os doentes de seus misteriosos males. Era assim que se tratava desde uma leve dor de cabeça até a mais grave pneumonia. Primeiro, tentavam expulsar o “mal” provocando vômito. Se não desse certo, usavam purgante para causar diarréia. A sangria era a última opção, considerada o tratamento “maior”. Há várias histórias sobre essa prática. Uma delas é caso de George Washington, primeiro presidente dos Estados Unidos. Quando ele deixou a presidência, foi para sua casa de campo e, durante um passeio, caiu do cavalo e quebrou a perna. Os médicos do presidente fizeram tantas sangrias que ele acabou morrendo de anemia aguda.
– AE – A pílula anticoncepcional surgiu dentro desse conceito antigo?

– COUTINHO – A influência de Hipócrates e Galeano, que viveram respectivamente há 2400 e 1800 anos, foi tão persuasiva que até hoje são citados na literatura médica. Em pleno século 21, há quem acredite que as mulheres precisam sangrar para desintoxicar o organismo. Essa é uma das razões pelas quais a pílula foi programada para continuar imitando a natureza. A menstruação incorporou-se de tal forma à cultura que a indústria farmacêutica e os médicos se preocuparam em desenvolver algo que assegurasse às usuárias um sangramento mensal.

– AE – O sangramento mensal, durante o uso da pílula, foi então uma concepção equivocada?
– COUTINHO – O uso contínuo da pílula por 21 dias, seguido do intervalo de oito dias para surgir o sangramento, foi idealizado pelo professor John Rocks, o responsável pela introdução dos anticoncepcionais nos Estados Unidos. Por ser católico praticante, ele pensava que, se a pílula se assemelhasse ao ciclo menstrual, o método seria aceito pela Igreja Católica. Além disso, o sangramento mensal serviria como prova da eficiência da pílula na contracepção. Mesmo assim, a igreja manteve sua posição contra os anticoncepcionais e as pílulas mantiveram essa característica de imitação do ciclo menstrual.

– AE – A partir de quando veio a sua teoria de que não menstruar traz benefícios?
– COUTINHO – Comecei a me envolver com pesquisa científica. Na época em que inventaram a pílula, lá pelos anos 60, estava nos Estados Unidos, e não me conformava com a idéia de a mulher ter de menstruar. Tentando desenvolver um anticoncepcional injetável, descobri que as mulheres que ficavam sem menstruar durante meses tinham melhoras em casos de anemia, cólica, TPM, etc. O efeito desse anticoncepcional poderia durar meses ou até um ano, dependendo da dose. Foi quando decidi estudar a história da menstruação. Passei mais de dois anos mergulhado em livros, nas grandes bibliotecas americanas, e fui me convencendo do grande equívoco da menstruação, que é, nada mais, nada menos, do que um método anticoncepcional primitivo. “INSPIRADO NA MENSTRUAÇÃO, HIPÓCRATES PASSOU A ACREDITAR NA SANGRIA TERAPÊUTICA COMO RECURSO INFALÍVEL PARA LIVRAR DOENTES DE SEUS MALES.”

– AE – Por que o senhor vê o ciclo menstrual como um miniaborto?

– COUTINHO – Antes dos anticoncepcionais, a mulher evitava a gravidez deixando de ter relações sexuais ou praticando sexo oral ou anal, para não colocar sêmen dentro dela. No passado, dificilmente se encontraria uma mulher menstruada, uma vez que sempre estaria grávida ou amamentando, condições nas quais não ocorre ovulação e, conseqüentemente, falta a menstruação. Com os métodos anticoncepcionais, a mulher civilizada ovula repetidamente sem engravidar, abortando os ovos não fertilizados, o que chamo de miniaborto.

– AE – Quais problemas estão associados à menstruação?

– COUTINHO – Os sangramentos repetidos contribuem para a anemia, característica do sexo feminino, além das doenças chamadas catameniais, associadas à menstruação ou ao refluxo de sangue menstrual, tais como endometriose, cólica (dismenorréia), enxaqueca, miomas, entre outras. Escrevi um artigo para a revista americana “Contraception”, chamado “To Bleed or not to Bleed, That’s the Question” (Sangrar ou não Sangrar, eis a Questão), no qual descrevo tudo de ruim que a menstruação pode provocar, e desafio quem falar o contrário.

– AE – Quais são os benefícios da supressão do sangramento mensal?

– COUTINHO – Não menstruar diminui a incidência de câncer de mama, de útero, de ovário. E também diminui a incidência de câncer no colo do útero por um mecanismo diferente: porque a mulher que usa esse método é aquela que se cuida melhor, é dona de si. A menstruação é também um meio de contaminação muito importante: manter relação menstruada pode disseminar doença, uma vez que é pelo sangue que a bactéria vai. O refluxo do sangue contaminado por vírus nas trompas pode ser responsável por uma peritonite, inflamação do peritônio (membrana que reveste a cavidade abdominal). Este problema exige cirurgia complicada e pode matar.

– AE – Por que a reposição hormonal na mulher é apontada como responsável pelo aparecimento de câncer?

– COUTINHO – Quando me perguntam se hormônio dá câncer, respondo que depende da circunstância. Os hormônios sexuais são os principais responsáveis pela vida reprodutiva animal. Sem eles, não haveria sexo. Sem sexo, não existiríamos. Os hormônios femininos, os estrogênios, transformam uma criança em mulher. E são os hormônios masculinos que transformam o menino em homem. Conclusão: os hormônios nos dão a vida. Quando somos jovens, produzimos hormônios em abundância. Nesse período da vida, que vai até a quarta década, o câncer é uma doença relativamente rara. O de mama, por exemplo, tem incidência inferior a 1% antes de 50 anos de idade. Mas quando a mulher deixa de fabricar os hormônios, o risco de câncer aumenta muito. O câncer de próstata é igualmente raro antes dos 40. Na segunda metade da vida do homem, quando a produção de testosterona cai e a vida sexual diminui, aumenta drasticamente o risco de câncer.
– AE – O câncer está associado a qual fator?
– COUTINHO – É mais lógico associar o aumento da incidência, tanto de câncer de mama como de próstata, à falta de hormônio do que ao seu excesso. Entre os fatores que aumentam a incidência após a quarta década, além da própria idade, estão: ganho de peso, consumo de bebidas alcoólicas, fumo, exposição ao sol e a prática de sexo inseguro. A cada 10 quilogramas que a mulher acrescenta a seu peso, a partir de 20 anos de idade, haverá um aumento de 30% no risco de desenvolver câncer de mama. Não tem hormônio esteróide que dê um aumento desse, nem o sintético, o qual eu não uso. O consumo de álcool, além de ser um dos responsáveis pelo ganho de peso, faz aumentar o risco de surgimento de vários tipos de câncer, porque a bebida afeta as células, interferindo no DNA. O fumo é o responsável por câncer de pulmão, bexiga e pâncreas. O sol provoca câncer de pele. E câncer do colo de útero, o mais comum no Brasil, está relacionado ao vírus HPV, adquirido através da relação sexual. Isso se aplica também ao câncer de pênis. Quanto mais variados os parceiros ou parceiras, maior o risco de adquirir o vírus. “NA SEGUNDA METADE DA VIDA DO HOMEM, QUANDO A PRODUÇÃO DE TESTOSTERONA CAI E A VIDA SEXUAL DIMINUI, AUMENTA DRASTICAMENTE O RISCO DE CÂNCER.”
AE – Os homens devem se preocupar também com reposição hormonal?
– COUTINHO – Testosterona tem de estar lá em cima sempre. Quando esse hormônio está baixo, o homem pendura a chuteira. Para saber quem precisa ou não, basta fazer exame para ver a dosagem no sangue. Mas existem alguns sinais que ajudam a revelar o nível de testosterona do homem. Um deles está na cara: alguém com barba farta e pouco cabelo pode indicar que a produção desse hormônio é alta. As evidências estão também no corpo: pouco ombro e quadril largo são sinais de baixa testosterona; assim como cansaço, perda de memória e de libido, independentemente da idade. Cuido da minha reposição hormonal. A minha gasolina é a testosterona.
– AE – Além do programa de controle de natalidade, como anda o projeto para ajudar mulheres que não conseguem engravidar?

– COUTINHO – Em breve, o CEPARH vai oferecer também às mulheres pobres e que não têm filho a oportunidade de ter um bebê de proveta. Como vai funcionar, ainda não sei. Já comprei um laboratório, em São Paulo, com dinheiro do meu bolso, e estamos instalando-o no instituto de Salvador. Outro projeto está em andamento na minha fazenda, no interior da Bahia. É onde faço bebê de proveta em gado. Compramos sêmen dos melhores touros do Brasil, recolhemos óvulos de vacas de raça, fazemos a fecundação in vitro e colocamos numa receptora barata, uma vaca sem estirpe, para gerar um bezerro valioso. Agora estão começando a nascer os primeiros filhos de proveta, que serão uns 70. É uma alternativa que encontrei para manter uma renda e, assim, conseguir diminuir meu ritmo de trabalho. Estaria rico se não tivesse destinado boa parte do meu dinheiro à filantropia.