Coutinho deu a seguinte entrevista ao jornalista Fabiano Ferreira

Existe alguma contra-indicação à opção de não menstruar? Coutinho – Se a mulher está tentando engravidar, precisa ovular. Então, a contra-indicação é só para mulheres que estão tentando engravidar. Se houvesse contra-indicação para não menstruar haveria mulheres que não poderiam entrar na menopausa. Só não deve parar de menstruar a mulher que tem uma doença hereditária chamada hemocromatose, que provoca excesso de ferro no sangue. Se ela suprime as regras tem de proceder como os homens com essa doença, que precisam fazer sangria regularmente. Idade ou estado de saúde, em geral, não são contra-indicações para a mulher que deseja parar de menstruar. Desde a mulher mais jovem à madura podem interromper a menstruação.

O senhor acha que o implante é o melhor método para não menstruar? Coutinho – Acho que ele é o mais prático e o que tem menos efeitos colaterais. Os implantes, em geral, oferecem à mulher exatamente o que ela precisa, de acordo com suas condições de saúde e hábitos sexuais, impedindo a gravidez com efeitos mínimos. Um implante que se chama Elmetrin, aprovado pelo Ministério da Saúde, pode ser usado até na lactação, pois funciona como anticoncepcional. Ele é eliminado pelo leite, mas não faz mal à criança. O efeito colateral é não menstruar, um efeito esperado pela mulher que o adota.

Está sendo lançado nos Estados Unidos um anticoncepcional trimestral. Qual a diferença dele em relação aos demais? Coutinho – Já existe no mercado brasileiro um medicamento chamado Lovelle, que é de uso vaginal contínuo para não menstruar, durante vários meses ou o ano inteiro, por exemplo. Esse produto tem a mesma composição do que está sendo lançado nos Estados Unidos com o nome de Sazonale. Ele é usado a cada estação, por isso a mulher só menstrua quatro vezes por ano. O Sazonale ainda não está disponível no Brasil, mas qualquer outro anticoncepcional eficiente pode ter o mesmo efeito se usado sem interrupção. As mulheres reclamam da menstruação por causa da Tensão Pré-Menstrual.

Quando não menstrua, a mulher fica isenta da TPM? Coutinho – Sim, exceto nas histerectomizadas. Esta operação é indicada quando ocorrem hemorragias muito intensas. Nesse procedimento, ela pode continuar tendo a TPM porque o problema está mais ligado aos ovários do que ao útero. Se a mulher retira o útero, mas deixa o ovário continua com a TPM mesmo sem menstruar. É uma espécie de TPM seca, sem sangramento.

Se adota um método para não menstruar, a mulher passa pela tensão? Coutinho – Nos primeiros dias depois do implante ela não sangra, mas ainda tem TPM. Isso porque ela já ovulou e as transformações que se passam no organismo e geram a tensão ocorrem independente da menstruação. A TPM é algo que antecede a menstruação e não que ocorre durante a menstruação. Então, a supressão da menstruação representa o fim da TPM. Os inibidores da ovulação, os anticoncepcionais, acabam com a TPM. Eu prefiro usar implantes de progestínio ou injetáveis, que têm efeito de seis meses ou um ano. Eles suprimem a menstruação e a Tensão Pré-Menstrual.

As mulheres que suprimem a ovulação podem engravidar normalmente? Coutinho – Sim. É só suspender o método e engravidar. Pode-se engravidar até com a primeira evolução após a suspensão do método. Nesse caso a mulher não menstrua porque ela emenda o período de não menstruação com a própria gravidez. Ela passa da amenorréia gerada pela medicação para a amenorréia da gestação.

Quais os reflexos no organismo da mulher quando ela pára de menstruar? Coutinho – Quando a mulher pára de menstruar adotando um esteróide (composto usado em pílulas anticoncepcionais) ela não sente efeito nenhum. A não ser em casos de esteróides com propriedades particulares como a gestrinona, um dos esteróides que eu uso e que é anabolizante de proteína. Neste caso, as mulheres ficam com mais músculos do que gordura (indicado para mulher atleta). Mas quem usa um implante que não tem anabolizante continua com o mesmo corpo. Depende dos efeitos de cada um dos medicamentos utilizados para inibir a ovulação. Em geral, eles não trazem reflexos.

Quais os principais mitos que ainda existem em torno da menstruação? Coutinho – O primeiro mito é de que a menstruação é natural. O segundo é de que ela é boa para a saúde, o que não é verdade. Pelo menos em metade das mulheres ela provoca doenças como anemia, endometriose neumatóide e aumenta o risco de câncer. Por último, existe o mito de que a menstruação não pode ser evitada, mas já estamos acabando com isso. Há também crendices de que durante a menstruação a mulher não pode lavar a cabeça ou tomar sorvete. Infelizmente ainda tem gente que acredita, o que é muita ingenuidade. A sociedade e a mulher, em especial, consideram a menstruação natural.

Será que é por isso que sua tese ainda causa tanta polêmica? Coutinho – As pessoas associam algo natural a uma coisa boa. Na realidade, isso não é verdade. Há muita coisa natural que não é boa. A doença, causada por bactérias, por exemplo, é natural e no entanto não é boa. A violência também é natural, pois um bicho come o outro para sobreviver. O bom e o ruim se aplicam de formas diferentes ao conceito de natural.

O senhor acredita que a possibilidade de pôr um fim à menstruação é mais uma conquista da mulher rumo à emancipação total? Coutinho – Absolutamente. A mulher tinha uma conquista importante que era a pílula anticoncepcional, que a permite, como o homem, transar sem engravidar. Isso deu enorme liberdade à mulher. Acho que o homem é quem não gostou muito dessas inovações. Menstruar só quando se quer é algo ainda novo para a mulher e me sinto orgulhoso por ter erguido essa bandeira.

Como o senhor reage às críticas da Igreja Católica sobre seus métodos contraceptivos? Coutinho – A Igreja já cometeu erros graves e se opor ao uso da contracepção é só mais um deles. É um erro grave querer se envolver com uma questão que diz respeito somente à pessoa. Durante 400 anos, a Igreja Católica teve um poder enorme e, como as pessoas têm fé, aceitam tudo o que prega. É absurdo se opor ao uso da camisinha, porque está se opondo à saúde pública. Isso é anacrônico. O pior é alguém ainda prestar atenção nisso. A maioria dos católicos continua usando anticoncepcionais injetáveis e camisinha. Eles fazem isso porque se tiverem filhos a Igreja vai tomar conta deles? Não vai né?

Na sua opinião, o governo é omisso em relação ao planejamento familiar? Coutinho – Sim. O governo brasileiro sempre foi omisso e é muito influenciado pela Igreja. Dentro do Ministério da Saúde tem muita gente da Igreja que ainda opina com mais poder de fogo do que qualquer médico. A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) é sempre ouvida nesses assuntos. A única coisa que o governo faz de bom é não se meter nas iniciativas privadas para promover o uso da contracepção no planejamento familiar. Mas há governos municipais que colaboram muito. Na Bahia, por exemplo, há um programa que conta com um veículo que vai à periferia para prestar assistência. Graças à iniciativa privada é que estamos conseguindo que haja uma desacelaração no crescimento populacional no Brasil. Infelizmente, hoje só quem tem poder aquisitivo faz planejamento familiar.

Coutinho estuda a mais de 50 anos, estes e outros recursos para suspender a menstruação e evitar a gravidez, com em atendimentos nos estados da Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Distrito Federal.