O fim “daqueles dias” – Revista ISTOÉ

Dono de uma opinião polêmica, o médico Elsimar Coutinho afirma que a menstruação deve ser evitada.
O médico Coutinho: “A menstruação provoca anemia, tensão e doenças como a endometriose.”

Por: CILENE PEREIRA

Conhecido pela atuação na área de reprodução humana e planejamento familiar, o médico baiano Elsimar Coutinho, 66 anos, é dono de uma opinião no mínimo polêmica. Ele defende, com veemência, a tese de que a menstruação é um fenômeno inútil e desnecessário. Pior, ao menstruar, a mulher aumenta o seu risco de desenvolver várias doenças, entre elas a anemia. Pesquisador do assunto há 30 anos, Coutinho decidiu reunir suas convicções no livro Menstruação, a sangria inútil, lançado pela Editora Gente. Casado e pai de duas filhas, ele garante que não está sozinho na defesa de suas idéias. “As mulheres da minha casa só menstruam quando querem”, diz o médico.

ISTOÉ – Por que o sr. diz que a menstruação é uma sangria inútil?
Elsimar Coutinho – Porque é desnecessária e, consequentemente, dispensável. A mulher não precisa sangrar todos os meses para conservar a saúde. Na realidade, quanto menos sangrar melhor para ela.

ISTOÉ – Baseado em que o sr. chegou a essa conclusão?
Coutinho – Há 30 anos observo mulheres nos períodos em que sangram e nos períodos em que não sangram. É justamente quando não menstruam que se apresentam mais saudáveis. Períodos longos sem sangramentos melhoram os níveis de hemoglobina no sangue e, em consequência, o cérebro e os músculos são mais oxigenados.

ISTOÉ – Quais os males que a menstruação pode causar?
Coutinho – Ela contribui de maneira decisiva para o estabelecimento da anemia, que atinge à maioria das mulheres do mundo. Até nos países mais ricos, como os Estados Unidos, onde as mulheres são superalimentadas, 20% delas são anêmicas. A menstruação também está ligada a uma condição que pode ser devastadora para a mulher que é a tensão pré-menstrual (TPM), que afeta 40% delas. Esse distúrbio se apresenta de diversos modos e pode incluir enxaquecas demolidoras, grande ansiedade e profunda depressão. Mas talvez a mais importante doença provocada pela menstruação é a endometriose (implantação de fragmentos do revestimento interno do útero, o endométrio, em outros órgãos e tecidos no interior da cavidade abdominal). Essa doença atinge um número cada vez maior de mulheres e estima-se que na próxima década cerca de 200 milhões de mulheres sejam vitimadas por ela.

ISTOÉ – Deixar de menstruar não é uma situação contrária à natureza?
Coutinho – Ao contrário. A natureza não tem nada a ver com a menstruação. Esse sangramento é uma falha reprodutiva repetida todos os meses. Quando a mulher ovula, dá início a um ciclo gravídico que só será interrompido com uma menstruação se houver falha reprodutiva. A menstruação é como um aborto, um insucesso. Não se pode dizer que um aborto seja um fenômeno natural como não se pode dizer que ovulações malsucedidas todos os meses seja um fenômeno natural.

ISTOÉ – Como evitar a menstruação?
Coutinho – O sangramento é evitado com a gravidez, a amamentação à vontade do bebê ou com intensa atividade física. As mulheres que usam pílulas anticoncepcionais podem deixar de menstruar usando as pílulas continuamente. Em alguns casos extremos é necessário fazer a histerectomia total (retirada do útero), principalmente quando há tumores no útero ou nos ovários.

ISTOÉ – Mas evitar o sangramento por meio de cirurgias, como a retirada do útero, não seria mais agressivo do que permitir a ocorrência da menstruação?
Coutinho – Não. A retirada do útero em mulheres que já completaram suas famílias é uma das operações mais usadas nos países avançados. Existem, entretanto, outras alternativas, como o uso de anticoncepcionais injetáveis de efeito prolongado, que devem ser consideradas antes.

ISTOÉ – A suspensão da menstruação por um longo período não pode causar a infertilidade?
Coutinho – Não. A falta de menstruação não provoca a infertilidade.

ISTOÉ – Qual a reação das mulheres à sua tese?
Coutinho – As mais esclarecidas adoram. Aliás, ainda não encontrei nenhuma que tivesse lido o livro e que discordasse.

ISTOÉ – Mas no seu livro o sr. cita uma pesquisa da Organização Mundial de Saúde na qual a maioria das mulheres ouvidas revela não desejar suspender artificialmente a menstruação, apesar do incômodo. Como o sr. explica isso?
Coutinho – Falta de educação. Na Inglaterra, por exemplo, metade das mulheres prefere não menstruar.

ISTOÉ – O Sr. não tem medo de que sua tese o isole da comunidade médica?
Coutinho – Os médicos que lêem o livro gostam. Os que não lêem não gostam. Mas ele não foi escrito para agradar aos médicos e sim para servir às mulheres.